Economia a serviço das pessoas: novo paradigma econômico à luz da dignidade humana

O mundo passa por uma de suas maiores crises político-econômico-social. O atual modelo tem se mostrado, a cada dia, mais insustentável. Alguns grupos têm a percepção de que a economia é uma entidade autônoma, chegando a divinizá-la. Contudo, essa compreensão tem se mostrado equivocada: não é possível ignorar tamanha concentração de riqueza nas mãos de pequenos grupos, enquanto a grande maioria da população lutando por condições mínimas de sobrevivência.

Este modelo de capitalismo selvagem e improdutivo, baseado na exploração e no rentismo, faz dinheiro gerar dinheiro sem a necessidade de produção de bens e serviços, ampliando a cada dia, as desigualdades. O investimento produtivo, por outro lado, gera uma cadeia de emprego, renda e melhores condições de vida. Por isso, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, o Papa Francisco alertou para a necessidade de dizer não a uma economia da exclusão e da desigualdade social, pois ela mata (Francisco, 2013).

Diante deste modelo, o Papa Francisco alertou em sua Encíclica Laudato Si’ que a política não deve estar submetida à economia, nem a economia submetida ao paradigma do eficienticismo tecnocrático. Afirmou a necessidade de uma política e uma economia em diálogo, pautada pelo bem comum a serviço da vida, de maneira especial, a vida humana (Francisco, 2015).

O novo modo de pensar a economia está pautado nos princípios do bem comum e da dignidade humana. O Papa Francisco criticou a cultura do descartável, afirmando que o ser humano não pode ser reduzido a um bem de consumo, que pode usado e depois lançado fora (2013, nº 53). Para o Papa, a crise financeira hoje vivida está ligada diretamente à crise antropológica, que nega a primazia do ser humano” (Francisco, 2013, nº 55). Deste modo, criam-se ídolos e a economia fica sem “rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano” (Francisco, 2013, nº 55). Por isso, é necessário pensar uma economia capaz de relativizar “o dinheiro e o poder” (Francisco, 2013, nº 57).

O Papa propõe pensar a economia a partir de uma ética “não ideologizada” (Francisco, 2013, nº 57), a fim de criar equilíbrio e gerar uma ordem social mais humana. Deve-se colocar os pobres como participantes de seus bens, pois do contrário se estaria roubando-os e tirando-lhes a vida. Francisco (2013, nº 58) exorta a uma “solidariedade desinteressada e a um regresso da economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano”.

Esses princípios se unem à proposta da ecologia integral, uma vez que a crise ambiental e social se assenta no modelo econômico que destrói em nome do lucro, marginalizando os pobres. A grande proposta do Papa Francisco perpassa não apenas uma economia da justiça social, mas requer um sistema que cuide da casa comum e dos mais vulneráveis. Essa proposta fundamenta-se na fraternidade universal e da amizade social, através do cultivo da solidariedade, de relações baseadas no amor e no cuidado mútuo e da rejeição à cultura dos muros e separatismos. Um verdadeiro movimento de encontro e de paz.

Esse movimento passa pela educação capar de renovar a economia e a política, inspirando as novas gerações a priorizarem a pessoa humana e não o lucro. É através da formação que se pode cultivar a solidariedade e a fraternidade, a colaboração e a partilha, e se leve à rejeição dos modelos competitivos. Faz-se necessário uma educação capaz de refletir sobre o desenvolvimento sustentável e o consumo consciente, cultivado em pequenas comunidades produtivas, com modelos de negócios que respeitem o meio ambiente, energias renováveis e uma economia circular.

A educação torna-se ferramenta básica para moldar um novo sistema político-econômico-social que valorize a pessoa, o planeta e a fraternidade universal. Na alma do processo educativo deve estar o princípio expresso pelo Papa no lançamento do Pacto Educativo Global: “no centro a pessoa” (Francisco, 2019).

Renato de Cezare
Acadêmico do 4º Ano de Teologia – Itepa Faculdades e
Grupo de Pesquisa Teologia, Educação e Política – GETEP

Questões para responder/refletir:

1) Por que o modelo de economia vigente é tão prejudicial ao espírito de fraternidade?

2) Quais os princípios fundamentais para pensar uma economia na perspectiva do Papa Francisco?

Fotos: Arquivo Itepa Faculdades e Vatican Media