A ENCÍCLICA “DILEXIT TE” E O CONVITE DE SERMOS UMA IGREJA POBRE E PARA OS POBRES
Aos nove dias do mês de outubro de 2025, foi publicada a encíclica Dilexit Te, a qual nos convida a retornar ao coração do Evangelho: o amor de Cristo que transforma a vida e impulsiona a missão da Igreja. Em meio aos desafios do nosso tempo, o documento surge como um verdadeiro presente para a caminhada eclesial, apontando rumos para uma Igreja mais próxima das pessoas, mais sensível às suas feridas e mais comprometida com os pobres. Nessa perspectiva, o capítulo III “Uma Igreja para os pobres”, recorda que o seguimento de Jesus não pode ser separado do serviço aos mais necessitados, pois existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e a opção pelos pobres.
A leitura deste capítulo apresenta-se como um verdadeiro presente para o nosso modo de compreender e viver o ser Igreja. Em sintonia com o magistério recente e com o constante apelo do predecessor do Papa Leão, o Papa Francisco, à renovação da vida eclesial, o texto nos recorda que a identidade da Igreja não pode ser separada do amor concreto aos pobres. Mais do que uma reflexão histórica, ele nos oferece um caminho de conversão pastoral, convidando-nos a redescobrir uma Igreja que encontra sua riqueza não nos bens que possui, mas na capacidade de reconhecer e servir Cristo presente nos mais necessitados. Como o próprio documento afirma, existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres (nº. 36), realidade que deve iluminar todas as nossas ações pastorais.
Na realidade pastoral de hoje, esse ensinamento continua extremamente atual. Somos chamados a construir comunidades que não apenas falem dos pobres, mas que caminhem com eles, escutem suas dores e partilhem suas esperanças. Isso exige uma pastoral que saia de seus próprios limites, visite as periferias, acompanhe os enfermos, acolha os migrantes e esteja próxima daqueles que são esquecidos pela sociedade. Afinal, como afirma o texto ao recordar São João Crisóstomo: “se os fiéis não encontram Cristo nos pobres à sua porta, tampouco serão capazes de prestar-Lhe culto no altar” (nº. 41).
O amor aos pobres não nasce primeiramente de uma opção sociológica ou de uma estratégia pastoral, mas do próprio Coração de Cristo. Quem se aproxima de Jesus descobre um amor que se derrama sobre todos, especialmente sobre os pequenos, os sofredores e os excluídos. Por isso, a caridade cristã não é simples filantropia, mas participação no amor redentor do Senhor.
Assumir o compromisso de ser uma “Igreja para os pobres” significa também rever constantemente nossas prioridades pastorais. Muitas vezes, a pobreza não se manifesta apenas na falta de recursos materiais, mas também na solidão, na ausência de perspectivas, nas dependências e nas feridas familiares. Diante dessas situações, somos chamados a cultivar um olhar misericordioso e atento, semelhante ao de Cristo, que nunca permaneceu indiferente ao sofrimento humano. Portanto, A Igreja é chamada a tornar visível a misericórdia de Deus na história, não apenas por meio de obras assistenciais, mas também através da escuta, da acolhida, do perdão e da promoção da dignidade humana.
O texto recorda ainda que os pobres não são apenas destinatários da ação evangelizadora, mas verdadeiros protagonistas da vida da Igreja. Como recorda Aparecida , “os pobres são sujeitos da evangelização.” (DAp 398). Eles nos ensinam a confiança em Deus e nos ajudam a compreender o Evangelho de forma mais autêntica. Não por acaso, São João Paulo II afirmava que “há na pessoa dos pobres uma especial presença de Cristo” (nº79), e o documento insiste que a Igreja encontra sua identidade mais profunda quando se coloca ao lado dos últimos.
Além disso, a tradição cristã demonstra que fé e caridade jamais podem ser separadas. Desde os primeiros diáconos, passando pelos monges, pelas ordens mendicantes e por santos como Francisco de Assis, Teresa de Calcutá e Dulce dos Pobres, a história da Igreja testemunha que o Evangelho se torna mais credível quando é acompanhado por gestos concretos de amor e serviço. Como sintetiza o próprio texto: “o Evangelho só é bem anunciado quando leva a tocar a carne dos últimos” (nº. 48).
Dessa forma, a missão pastoral encontra sua autenticidade quando une anúncio e testemunho, oração e compromisso, liturgia e caridade. Ser Igreja para os pobres não é uma atividade complementar, mas uma exigência do seguimento de Jesus Cristo. Quando nos aproximamos dos mais necessitados, reconhecendo neles o rosto do Senhor, tornamo-nos uma comunidade mais fiel ao Evangelho e mais capaz de manifestar ao mundo a misericórdia de Deus. É fundamental fortalecer em nossa espiritualidade o vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres (EG 48). Nesse sentido, o desafio pastoral de nosso tempo continua sendo o mesmo dos primeiros cristãos: fazer da Igreja uma verdadeira casa de acolhida, fraternidade e esperança para os pobres.
Assim, ser uma Igreja pobre e para os pobres não constitui apenas uma escolha pastoral entre tantas outras, mas uma exigência do próprio Evangelho. Ao contemplar o Coração de Cristo, a comunidade cristã descobre que sua missão consiste em tornar visível no mundo o amor de Deus pelos mais frágeis, transformando-se em sinal de esperança, fraternidade e misericórdia para todos.
Ir. Maria Luísa de Luca
Professora da Itepa Faculdades
João Victor Pereira
Ex-Acadêmico da Itepa Faculdades
Bibliografia PAPA LEÃO XIV. Dilexi Te. Sobre o amor para com os pobres. São Paulo: Paulinas, 2025.
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