Papa Francisco e os Pobres

O Papa Francisco (1936-2025) permaneceu à frente da Igreja por doze anos, entre 2013 e 2025. Foi o primeiro pontífice das Américas e o 266º sucessor do apóstolo Pedro. Natural da Argentina, cresceu na região de Buenos Aires, onde se formou como técnico químico, antes de ingressar na vida religiosa na Companhia de Jesus. Sem a pretensão de ascender na hierarquia eclesiástica, seu testemunho de vida sacerdotal levou-o a assumir responsabilidades que o conduziram a tornar-se o principal líder da Igreja Católica no século XXI.

Francisco, como Papa, deixou um legado grandioso. Entre suas diversas iniciativas, podemos destacar a sinodalidade, o cuidado com a casa comum, as reformas administrativas e a promoção de uma Igreja misericordiosa e em saída, entre outras. Neste contexto, buscamos dar ênfase a uma característica marcante de seu pontificado: a opção pelos pobres. Segundo Cordeiro (2020), Francisco não apenas assumiu essa opção, mas também a viveu concretamente em sua trajetória pessoal; tal concepção está subjacente à sua história de vida simples, marcada pela proximidade com o povo, pela utilização frequente do transporte público e pela presença constante nas periferias.

Durante o seu pontificado, observamos um estilo de vida simples, expresso em suas vestes, em seus calçados e em seus gestos de caridade, os quais revelavam um ambiente de humildade. A partir desse testemunho, Francisco aprofundou, junto aos cristãos, a reflexão sobre a necessidade de olhar para os pobres e caminhar com eles. Francisco (2013) recorda que a opção pelos pobres tem suas raízes na Sagrada Escritura; basta percorrê-la para perceber o quanto esses são destinatários privilegiados da mensagem de Deus. Sua visão, não se limita à provisão material dos necessitados, mas abrange a promoção de condições que lhes permitam buscar a dignidade de vida, fortalecer a família e tornar-se membros plenos da casa comum.

Como iniciativa de oração, conscientização e compromisso evangélico, Francisco instituiu, em 2017, o Dia Mundial dos Pobres, celebrado em toda a Igreja no domingo que antecede a solenidade de Cristo Rei. Trata-se de uma oportunidade de renovar a proximidade, a fraternidade e a solidariedade para com os pobres. Nessa perspectiva, Francisco destacou que tal iniciativa oferece a todos uma dimensão essencial da vida cristã: estender a mão aos mais frágeis deste mundo. Assim, afirma: “O amor não admite álibis: quem pretende amar como Jesus amou deve assumir o seu exemplo, sobretudo quando somos chamados a amar os pobres” (2017, p. 1). Ademais, a construção de uma cultura do encontro constitui uma das expressões centrais de seu pensamento, entendida como o encontro com o rosto do outro que sofre.

Papa Francisco (2017), em mensagem aos participantes do Encontro dos Movimentos Populares, realizado em Modesto, Califórnia, expressou o desejo de fortalecimento de todos aqueles que lutam por “terra, teto e trabalho”. Esses três “T” denunciam a tirania do dinheiro, que assegura privilégios a um número reduzido de pessoas. A desumanização configura-se como um processo que exige enfrentamento. Superar a pobreza implica confrontar, de modo firme, as contradições humanas, sociais e culturais. Nesse sentido, é imprescindível tocar a realidade do outro, partilhar seu sofrimento e reerguer-se conjuntamente em direção à dignidade da vida. A justiça social, por sua vez, está intrinsecamente ligada ao acesso à terra para todos, a uma moradia que revigore a dignidade humana e familiar e ao trabalho, que possibilita a valorização dos esforços em busca da realização humana.

O papa argentino ensinou que o compromisso com os pobres abrange a totalidade da vida cristã. Trata-se da própria essência do Evangelho e, mais do que isso, do reconhecimento dos pobres como destinatários privilegiados da mensagem salvadora. Nesse sentido, é necessário que, juntos – especialmente os pobres -, confiemos no Senhor, que nos acompanha, enquanto d’Ele dependemos em nosso caminho terreno rumo a Ele. Na pessoa do pobre, é o próprio Jesus Cristo quem nos interpela; esse encontro, portanto, não pode nos faltar. Por isso, segundo Francisco (2014), é preciso viver um estilo de vida evangélico, sóbrio e despojado de excessos, bem como promover uma verdadeira conversão em relação aos pobres, expressa no cuidado e na sensibilidade diante de suas carências materiais e espirituais. Ademais, os pobres ensinam com o seu modo de viver, recordando a dignidade que jamais lhes deve ser negada.

Portanto, o saudoso Papa Francisco deixou-nos um exemplo de ser humano e seguidor de Jesus Cristo, soube viver com profundidade e em espírito profético as realidades desafiadoras do mundo atual. Francisco indicou caminhos e nos mostrou que a construção de uma sociedade mais justa e solidária passa por decisões corajosas e cotidianas. Os enfrentamentos que, ao longo da vida, especialmente durante o pontificado, foram assumidos nos revelam um caminho que, enquanto Igreja e sociedade, precisamos trilhar em conjunto: cuidado com os pobres; respeito à casa comum; sinodalidade, Igreja em saída, entre outros. Francisco nos convida a ter os pés no chão da vida, enquanto olhamos para o alto, para o Reino!

Ms. Pe. Elcio A. Cordeiro
Professor da Itepa Faculdades

Anderson Munari
Acadêmico da Itepa Faculdades

Isolina Salete Mainardi
Acadêmica da Itepa Faculdades

Referências

CORDEIRO, Elcio Alcione. Papa Francisco e os pobres. In: Revista Vida Pastoral. Edição de janeiro-fevereiro de 2020. Ano 61. Número 331, pgs, 22-29.

FRANCISCO, Papa. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium sobre o anúncio do evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulinas, 2013.

FRANCISCO, Papa. Mensagem do Papa Francisco aos participantes no encontro dos movimentos populares realizado em Modesto, Califórnia. 2017. Disponível em: https://www.vatican.va/. Acesso em: 19/03/2026.

FRANCISCO, Papa. Mensagem para o I Dia Mundial dos Pobres. 2017. Disponível em: http://w2.vatican.va/. Acesso em: 19/03/2026.

FRANCISCO, Papa. Mensagem do Santo Padre Francisco para a XXIX Jornada Mundial da Juventude. 2014. Disponível em: http://w2.vatican.va/. Acesso em: 19/03/2026.