60 anos do encerramento do Concílio Vaticano II: esperanças suscitadas

O Concílio Vaticano II (1962-1965) foi um acontecimento corajoso e grandioso para toda a história da Igreja Católica Apostólica Romana, influenciando o modo de ser da Igreja e de seus membros, tanto clérigos como leigos. O Papa responsável por convocar o Concílio Vaticano II, foi o italiano João XXIII (1958-1963), já com idade avançada, aos 67 anos, teve a ousadia de abrir “as janelas da Igreja”. Com apenas três meses de pontificado anunciou o seu desejo de convocar um grande concílio a fim de realizar uma intensa reforma na Igreja. O grande desejo de João XXIII era o de efetivar uma atualização, em italiano, “aggiornamento”.

Segundo Souza (2022), a intenção do Papa era realizar uma espécie de “acerto de contas” com a história, levando em consideração os muitos desentendidos com outras igrejas, bem como, uma renovação dentro da própria Igreja e colocá-la em diálogo com o mundo moderno. Uma certeza deixava claro o Papa de idade avançada: era preciso mudar!

Enrique Dussel (1934-2023) filósofo argentino, um dos principais expoentes do pensamento latino-americano em filosofia e teologia, destaca que o Concílio Vaticano II representou para os bispos latino-americanos, em geral, a primeira experiência de participar de um concílio. Dussel (1984) reflete que no concílio de Latrão de 1517, apenas um bispo latino-americano esteve presente. Posteriormente, no concílio Vaticano I (1869-1870), um grupo de 65 bispos latino-americanos estavam, porém, não tiveram atuação relevante.

No Concílio Vaticano II, os bispos latino-americanos estiveram em um número de 601 e atuaram nos trabalhos com voz e interferência. Apesar que na leitura de Dussel (1984) deveriam ter participado com mais intensidade, mostrando a realidade da Igreja na América Latina. Entrementes, pelos encontros realizados e trabalhos feitos, muitos resultados vieram acontecer na América Latina, entre outros documentos importantes, citamos a Mensagem dos bispos do Terceiro Mundo, o qual, teve a presença atuante do bispo brasileiro Helder Câmera (1909-1999), e nesta se refletiu que os povos do terceiro mundo representavam os mais pobres e estavam sobre o poder imperialista dos países de primeiro mundo.

O discurso de abertura do Concílio, proferido em 11 de outubro de 1962, por João XXIII é um texto que demarca, em grandes linhas, o que foi trabalhado. O Papa apresentou o desejo de transformação, de uma atualização no tempo dentro de uma postura aberta e dialogal. Outra qualidade que encontramos neste discurso é a humildade do Papa de reconhecer os erros e colocar-se em diálogo. João XXXIII destacou a importância de refletir os temas atuais e colocar a Igreja aberta a relações com outras formas de crer, com o mundo moderno e com os avanços da técnica.

No Concílio Vaticano II, a Igreja olhou para dentro, fez uma espécie de autoanálise, em acordo com o presente que se vivia. Sem perder à sua maneira de crer em valores humanos, expôs a vontade de dialogar e contribuir com o mundo. Entretanto, como esperado por alguns, as forças físicas de João XXXIII se esvaíram em pleno Concílio, evoluindo a óbito aos 82 anos, em 3 de junho de 1963. Para dar continuidade ao governo da Igreja, foi escolhido o Papa Paulo VI (1963-1978), o qual deu prosseguimento ao evento conciliar até o seu fim em 1965.

Tendo passado seis décadas desse acontecimento paradigmático à Igreja e ao mundo, podemos nos questionar: que esperanças ainda suscita o Concílio Vaticano II? Enfatizaremos algumas características que também fazem efeito em nossa postura de cristãos. Como por exemplo: a força do diálogo; a sinodalidade; a participação alegre e uma Igreja ministerial.

O diálogo é uma qualidade indispensável na evangelização. Uma postura dialogal manifesta o respeito pelo diferente, pelas diversas manifestações religiosas existentes. Assim como destaca o Catecismo da Igreja Católica, nº 1879: “A pessoa humana tem necessidade de vida social. Esta não constitui para ela algo acrescentado, mas é uma exigência de sua natureza. Mediante o intercâmbio com os outros, a reciprocidade dos serviços e o diálogo com os seus irmãos, o homem desenvolve as próprias virtualidades; responde assim à sua vocação”. O diálogo é o caminho para aproximação com o outro, sem abertura ao diálogo não há possibilidade de evangelização.

A sinodalidade é uma característica histórica na Igreja. A Igreja sinodal necessita de abertura e testemunho. Nesse sentido, afirma o Documento Final do Sínodo, nº 28: “A sinodalidade é o caminhar juntos dos cristãos com Cristo e para o Reino de Deus, em união com toda humanidade; orientada para a missão, implica o encontro em assembleia nos diversos níveis da vida eclesial, a escuta recíproca, o diálogo, o discernimento comunitário, a formação de consensos como a expressão da presença de Cristo no Espírito e a tomada de uma decisão em corresponsabilidade diferenciada”. Importante retêr que a sinodalidade é constitutiva da Igreja, é uma postura de ser Igreja com o Povo de Deus.

A participação alegre, ou, “fazer parte da ação” possui o potencial de formar a comunidade. Pois, sem comunidade não há Igreja. Assim como reflete o Documento de Aparecida, nº 29: “A alegria do discípulo é antídoto frente a um mundo atemorizado pelo futuro e oprimido pela violência e ódio. A alegria do discípulo não é um sentimento de bem-estar egoísta, mas uma certeza que brota da fé, que serena o coração e capacita para anunciar a boa nova do amor de Deus”. Diante da sociedade do cansaço, stress e “chatice”, a participação alegre do cristão possui a força de transformar relacionamentos e vivências comunitárias.

A Igreja ministerial foi um grande anseio do Concílio Vaticano II. Ainda, é preciso destacar e renovar os papeis e funções dos diversos ministérios presentes, eles auxiliam e dão identidade eclesial a comunidade. Assim destaca o decreto Apostolicam Actuositatem do Conc. Vat. II, nº 1331: “O apostolado dos leigos, decorrente de sua vocação cristã, nunca pode faltar a Igreja. […]. Nosso tempo exige dos leigos um zelo não menor, pois as circunstâncias atuais reclamam deles um apostolado mais intenso e mais amplo”. Os leigos, com maior espaço ministerial acrescentam a Igreja e a deixam-na mais humana, proporcionando amor, proximidade e empatia.

Enfim, os sessenta anos de encerramento do Concílio Vaticano II, suscitam-nos esperanças que nos movem a acreditar que o caminho da Igreja Católica é desafiador, porém, detêm a importância da dignidade humana, da alegria de viver e da esperança na vida eterna. Que a partir desse marco histórico eclesial possamos abrirmo-nos ao diálogo que nos leva ao outro; a sinodalidade que nos molda o jeito de ser; a participação que incute a leveza da alegria do Evangelho; juntamente a uma Igreja ministerial, onde há lugar para todos! Todos! Todos!

Pe. Elcio A. Cordeiro
Padre da diocese de Palmas-Francisco Beltrão.
Formador da Etapa da Configuração.
Professor da Itepa Faculdades.
Doutorando em Educação na Universidade de Passo Fundo – UPF.

Referências Bibliográficas

ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS. XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos: para uma Igreja Sinodal: comunhão, participação, missão. 1ª edição. Brasília, DF: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, 2024.

CATECISMO da Igreja Católica. 8ª edição. Tradução: editora Vozes. São Paulo: Vozes, 1998.

CELAM. Documento de Aparecida: Texto conclusivo da V Conferência geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. 5ª edição. São Paulo: Paulus, 2008.

CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. COMPÊNDIO DO VATICANO II. Constituições, decretos e declarações. Petrópolis 5ª Edição. – RJ: Vozes, 1969.

DUSSEL, Enrique D. Caminhos de Libertação Latino-Americana: interpretação histórico-teológica. Tomo I. Tradução: José Carlos Barcellos, Hugo Toschi. São Paulo: Ed. Paulinas, 1984.

JOÃO XXXIII, Papa. Discurso de sua santidade Papa João XXIII na abertura solene do SS. Concílio. Disponível em: https://www.vatican.va. Acesso em: 27/11/2025.

SOUZA, Ney de. História da Igreja na América Latina. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022.