Deus é nego! Afirma o teólogo norte-americano James H. Cones em seu livro, Teologia Nega. O que poderíamos pensar e refletir sobre isso em meio às questões sociais de hoje em nosso contexto brasileiro? Recordando que este livro foi escrito em meio às lutas para a libertação dos povos negros dos EUA, inquietando o povo a não se acomodar às questões de sofrimentos que estavam vivendo, pois Deus não se agrada e/ou não é conivente de tais situações.
Olhando para uma realidade de Brasil, podemos dizer: a Lei Áurea não foi assinada em 13 de maio de 1888? Então já foi concedida a libertação ao povo nego. Fomos libertos mesmo? E a consciência de sermos escravizados, foi trabalhada em nosso psicológico para que deixemos de pensar que por sermos desta cor, possuímos menor valor? A libertação veio com uma proposta de emprego, possibilidade de terra, ou simplesmente de abrir porteiras e que cada um se vire, fora de minhas terras, ou se submeta de forma livre as minhas novas formas de opressão?
Ao pensar na afirmação que Deus é nego, podemos pensar que nos referimos a sua iconografia, ou um desejo de que o Crucificado seja pintado/repintado de preto. Mas isso precisa levar a uma reflexão ainda maior, Deus que não abandona seu povo e assume sua vida, não se torna indiferente às dores deles, não só as dores, mas também às alegrias. Este fato me faz recordar quando o Concílio Vaticano II na Constituição Pastoral Gaudium et Spes nos recorda que, “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo […]” (n. 1), porque Deus se identifica com as questões de seu povo e nós negros também somos esse povo. Então podemos afirmar, Deus é negro, pois Ele não é indiferente a mim e minhas lutas.
Adentrando a uma reflexão de orientação bíblica podemos recordar a identificação que Deus faz com o povo de Israel, ao inquietar-se no Êxodo com o sofrimento daquele povo e manda Moises para resgatar, “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu grito por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso, desci, a fim de libertá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir desta terra para uma terra boa e vasta […]” (cf. Ex 3,7-8), Deus não se faz indiferente às dores de seu povo, nem na escravidão do Egito, nem nos exílios e dominações que Israel sofreu por outros povos, em tudo isso Deus se fez presente, para que não se perdesse a sua identidade como povo, e reunissem forças para lutar por um mundo melhor, tanto nesta pátria terrena, sem perder de vista a pátria celeste, e hoje não é diferente.
O que não dá para pensar é um conformismo diante das situações de opressão e não refletir, por que o discurso sobre Deus não tem gerado um mundo melhor, mas em muitos casos validam um discurso de ódio e de segregação. Pensar em Deus como negro, é pensar que Ele se compadece de muitos pais e mães de famílias que têm seus direitos ceifados, pois precisam trabalhar e sustentar a família com menos de um salário mínimo, porque esses pais não tiveram oportunidade de estudar, ou pior ainda, não tiveram a possibilidade de pensar que eles poderiam galgar melhores posições sociais.
Não tem como se conformar pois, enquanto alguns estudam em escolas bilíngues, climatizadas, têm muitos que estão em salas de aula superlotadas, onde faltam professores formados nas áreas. Estagiários ou professores de outros campos de saber assumem as disciplinas para completar suas cargas horárias. Pergunta-se pela possibilidade desses jovens sonharem nestas condições oferecidas. Então outros caminhos, aparentemente mais “fáceis”, são sinalizados como possíveis de serem seguidos.
Então, penso que, antes de propor uma chacina, busquemos refletir quais as origens dela. Sonhemos um mundo novo de justiça e paz, mas que ele seja para todos, não para uma parte privilegiada, lembrando que esse deve ser um sonho de todos, não uma classe seleta, sonhar um mundo de justiça e paz para poucos.
A fé deve nos inquietar para que os profetas não se calem, mas sim, falem e ajudem a criar um mundo novo, pois também Deus é negro.
Vinicius Dias dos Santos Brito
Grupo de Pesquisa Teologia, Sociedade e Negritude
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